Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC’s
- Silvia Travesso

- Apr 14, 2019
- 4 min read
Documentação:
Lançado há mais de vinte anos, em 1997, o disco Sobrevivendo no Inferno dos Racionais MC’s somou a quantia de 1,5 milhão de cópias vendidas e ganhou enorme repercussão por todo o país, simbolizando a consolidação da voz da periferia paulistana no topo das paradas musicais.
Com influência bíblica na capa e músicas, o álbum se tornou uma das obras mais importantes do rap brasileiro, ficando na 14ª posição entre os 100 melhores discos da música brasileira de acordo com a revista Rolling Stone Brasil. São 12 faixas compostas por Jorge Ben Jor, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e produzidas por KL Jay, que traduzem fortes críticas ao Estado e sistema policial.
As letras abordam temáticas relacionadas à realidade do grupo, como a miséria, desigualdade social, racismo e falta de oportunidade, mas com um toque maduro e consciente. A 3ª música do disco, intitulada como Capítulo 4, Versículo 3, relata claramente um desabafo do vocalista Mano Brown, que transmite em melodia, a raiva do cidadão que convive diariamente em situações desafiadoras por ser um morador da periferia brasileira. Em seu primeiro verso, o cantor desabafa:
“Sessenta por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais
Já sofreram violência policial
A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras
Nas universidades brasileiras
Apenas dois por cento dos alunos são negros
A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente
Em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”
Essa e outras músicas da obra enfatizam temáticas que escancaram uma realidade distante dos ouvintes do álbum e do estilo, outro exemplo é a faixa “Diário de um Detento”, que é verdadeiramente baseada no relato do diário de Jocenir, ex presidiário da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida popularmente como Carandiru. A música esteve no topo das rádios no ano seguinte de seu lançamento, e o videoclipe foi um dos mais aclamados, rendendo dois prêmios no MTV Music Awards Brasil 1998, além também de ter conquistado o título de 2º colocado na lista de “O Melhor Clipe Brasileiro de Todos Os Tempos”, pelo jornal Folha de São Paulo.
A importância do disco é tão significante para o país, que, em 2015, o então prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, presenteou Papa Francisco com o álbum em uma visita ao Vaticano. Após mais de suas décadas de seu lançamento, Sobrevivendo no Inferno continua sendo atual e ímpar. A obra prima dos Racionais MC’s incomoda justamente por ser uma voz que não se calou e tomou às dores de uma parcela significativa do país.
Crítica:
O álbum Sobrevivendo no Inferno do Racionais MC’s se destaca como uma das obras mais importantes do Brasil, não só por sua melodia e poesia autêntica, mas por ser um disco que retrata músicas sobre os desafios diários do negro periférico, exibindo claramente a exclusão racial que existe no país. São 12 faixas que ensinam política, história, direitos humanos e literatura de forma sútil, mas revoltada.
Os raps escacaram o movimento contra um Estado que tira violentamente a vida de jovens negros periféricos que são vítimas de um sistema racista e imoral. O grupo deu voz à juventude que possui excesso de discriminação e falta de oportunidade. O grito sufocado por tanta opressão prejudica o sujeito logo na infância, tempo em que fica de mãos atadas e apenas aceita a condição que é obrigado a viver.
Por muitas vezes, a época que seria necessária para brincar, se desenvolver e formar seu caráter, é utilizada para trabalhar e ajudar com as despesas da casa, abolindo todo o sentido natural do ser humano.
Quando jovem, o disco relata que o cidadão se encontra de frente com a falta de oportunidade e uma vasta rejeição da sociedade, que por meio de um preconceito formado há séculos ainda não desenvolveu seu pensamento. Na terceira música do disco, Capítulo 4, Versículo 3, o vocalista relata explicitamente esses fatos: “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros. A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo.”
O lançamento do álbum naquele ano, em 1997, foi essencial para divulgar assuntos como racismo e direitos civis que não eram discutidos em salas de aula. O grupo, conquistou para a população negra brasileira a mesma importância e impacto que grandes movimentos pelos direitos civis dos negros ocasionaram nos Estados Unidos na década de 60, como o Black Power e Partido dos Panteras Negras. Frustrado com sua realidade, os autores da obra resistiram através da música e com suas canções, devolveram ao jovem negro a esperança e o grito do guerreiro de Ogum Iê, saudado na primeira faixa do álbum: Jorge da Capadócia.
Devolvendo assim, a autoestima do negro e provando sua dignidade. Basicamente, todos os discos dos Racionais MC’s fazem com que o ouvinte reflita sobre a vida e injustiças raciais causadas nela. Sobrevivendo no Inferno foi mais uma obra que levou milhares de pessoas a um exercício de reflexão ao ouvir um jovem negro contato sua história de: “lágrima, sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão.” (trecho da faixa 7, Diário de Um Detento).

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