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Quando me descobri negra - Bianca Santana

  • Writer: Silvia Travesso
    Silvia Travesso
  • May 12, 2019
  • 4 min read



Documento:


De capa e páginas pretas, com ajuda das ilustrações de Mateu Velasco, o livro “Quando me descobri negra” retrata o processo de autoconscientização da escritora, jornalista e professora Bianca Santana.

Construído com uma narrativa rápida, realista e até mesmo chocante, tanto para quem vive cotidianamente as situações descritas quanto para quem nunca sofreu algo do tipo, o livro é biográfico. A literatura acompanha as situações vividas por negros, com histórias da própria autora e com declarações de pessoas que endossam suas vivências.

Os relatos do livro carregam um tom sóbrio de denúncia. Com situações que apresentam uma sociedade racista, repleta de preconceitos e embasada em estereótipos negativos sobre a vida e existência negra.

“Tenho 30 anos, mas sou negra apenas há 10. Antes, era morena.” Com o peso dessa sentença (tão comum na vida brasileira), a escritora inicia uma série de relatos que dividiu em três fases narrativas. Os capítulos “Do que vivi”, “Do que ouvi” e “Do que pari” acompanham o processo de descoberta da como pessoa digna negra, que envolvem desde a identidade familiar, o processo de aceitação da sociedade e a pesada auto aceitação.

Ao fazer uma análise social do ambiente que estamos inseridos e da própria família da escritora, ela identifica o processo de “branqueamento”. A ausência de hábitos africanos (apesar da cara descendência) e a falta de orgulho com a identidade negra são presentes na construção social atual do nosso país.

Durante a narrativa, a autora descreve situações infelizmente comuns que as pessoas negras são obrigadas a passar ao longo de suas construções como seres humanos e indivíduos negros. Uma das abordagens mais recorrentes refere-se aos estereótipos. Um jovem negro, por mais bem vestido e alinhado que esteja, por mais que tenha instrução nos estudos e seja coerente com a moral, a ética e a sociabilização, ainda causa “medo” por conta da imagem criada e associada à marginalização. Uma negra, por mais que seja integra e retraída, é fortemente sexualizada. Esse tipo de papel social creditado aos negros que leva a “vergonha” de ser uma pessoa de identidade negra, e assim, surge a amenização.

Com a declaração de que antes de ser negra ela era morena, a autora constrói um caminho árduo para a identidade negra atual. Ser morena significaria que ela já era menos negra, e com o tempo e o branqueamento, seria ainda menos negra com o passar do tempo, até não ser negra e não estar à margem da sociedade racista e preconceituosa.

A valorização da obra é uma quebra de paradigmas, é um passo para o processo de aceitação do pensamento negro. A obra ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti 2016 na categoria de ilustração, e o trabalho feito nas noventa e seis páginas vai além da arte e editoração notáveis. O trabalho feito nesse livro é social, de identidade e traz a perturbação necessária para ter-se a paz de ser negro no Brasil.


Crítica:


Bianca Santana é jornalista, já foi professora na Faculdade Cásper Líbero e, com sua obra “Quando me descobri negra“, coloca em pauta de forma literária o processo de aceitação da identidade da pessoa negra e as situações sociais e pessoais que a sociedade retrógrada e racista impõe à pessoa de etnia diferente da branca.

A sentença que a autora selecionou para começar sua narrativa evidencia a situação da maior parte dos indivíduos não-brancos: “Tenho 30 anos, mas sou negra apenas há 10. Antes, era morena.” Afirmo o eco desse sentimento com os dados divulgados pelo IBGE, onde apenas 8% dos brasileiros declaram-se pretos. Porém, se somarmos os pretos e pardos autodeclarados, temos 53% da população nacional.

As pessoas negras usam de paliativos, como a miscigenação, para fugir dos estigmas negros, pois são pesarosos para carregar. Assim, qualquer sinal de descendência branca ou europeia já é suficiente para o indivíduo não identificar-se como negro, mas é necessária muita construção social para que esta pessoa posicione-se como preta.

Isso ocorre porque, no imaginário social, as raízes negras significam estigmas negativos. Até mesmo em expressões verbais, quando “a coisa tá preta”, ela está ruim, o “mercado negro” é sinônimo de ilegal e “serviço de preto” é um trabalho malfeito e inapropriado. A construção social para ser negro leva à vergonha, falta de identidade e processo vexatório.

Na obra, a autora apresenta relatos de pessoas negras em situações de racismo. Mostra que independente de posição social, nível de instrução de estudo e por mais que as atitudes sejam éticas e coerentes, a pessoa negra é precedida pelo seu estereótipo de cor.

No livro, acompanhamos o processo de aceitação da cor preta como algo que pode trazer orgulho e não como um defeito. A autora coloca que antes de ter a coragem e esclarecimento de intitular-se negra “Minha cor era praticamente travessura do sol”, como se ela fosse “morena” não por descendência ou nascimento, mas por tomar muito sol, e isso seria algo passageiro, assim, se ela viesse a tomar menos sol, seria menos morena e o “defeito” desapareceria.

Esse tipo de colocação evidencia a vergonha em ser irremediavelmente uma pessoa negra, e como não há solução para a situação, não há também um “perdão social”. A pessoa é negra e será sempre negra, mas para aceitar-se melhor, coloca-se como “parda” ou “morena”, na tentativa de fugir da sentença de ser negra.

O livro é transformador por ser realista e presente. O significado de ter uma mulher negra orgulhosa de sua cor, mostrando para outros negros que podemos apreciar nossas origens e não precisamos fugir delas é um objeto de mudança social e deve alçar reconhecimento, para ser amplamente apresentado e discutido, tanto entre negros, como entre não-negros e brancos. A visibilidade negra e o orgulho de ser negro é decisivo na construção de uma cultura menos excludente e mais assertiva na tratativa da diversidade.

 
 
 

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