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Sobrados e Mucambos - Gilberto Freyre

  • Writer: Silvia Travesso
    Silvia Travesso
  • May 5, 2019
  • 4 min read

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Publicado em 1936 pela Companhia Editora Nacional, Sobrados e Mucambos é um livro escrito por Gilberto Freyre que leva no subtítulo a seguinte frase: Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. Em suma, a obra relata o conceito de cultura e dos seus anexos na tentativa de reconstruir e interpretar fatos que ocorreram na história social da família brasileira, desde sua colonização até os dias atuais.

Sobrados e Mucambos é uma obra que se inicia com a chegada de Dom João VI ao Brasil no ano de 1808 e finaliza em 1889, com a programação da república. A obra mostra com clareza a paisagem social brasileira quando se altera com a urbanização da casa grande, que ao invés de possuir uma senzala, contém um pequeno cômodo para criados.

Os sobrados também passam por uma transformação, surgem cortiços, aldeias e mucambos, crescendo lado a lado de grandes sobrados. Freyre evidencia como aconteceu a formação do povo brasileiro, o desenvolvimento das cidades e compreende as transformações do patriarcado rural, que foi atingido pelo declínio da escravidão e pressionado pela modernidade internacional e suas tendências.

Em suas 629 página, o livro aborda a mudança de influência do sobrado (urbano) sobre a casa-grande (rural). Com esse desenvolvimento das cidades, a classificação das relações sociais foi firmada pela oposição entre o mundo arcaico e os valores europeus burgueses, que vieram para integrar-se ao perfil do caráter nacional, criando espaço para uma socialização até então inexistente. Na obra, Freyre mostra que a valorização social do povo começou a fazer sentido em volta de outros elementos, como por exemplo, a Europa. Essa ideia de “europeização” tinha como finalidade civilizar os brasileiros de modo semelhantes às maneiras e aos comportamentos burgueses, se tornando um valor essencial para a chegada da modernização do Brasil. A troca de mercadorias, citada na obra, por sua vez, era o meio que acarretava modificações na estrutura de sociabilidade, gerando novas relações entre filhos e pais, pretos e brancos e mulheres e homens.

No último capitulo do livro, o autor destaca: “É impossível defrontar-se alguém com o Brasil de Dom Pedro I, de Dom Pedro II, da princesa Isabel, da campanha da Abolição, da propaganda da República por doutores de pincenez, dos namoros de varanda de primeiro andar para a esquina da rua, com a moça fazendo sinais de leque, de flor ou de lenço para o rapaz de cartola e de sobrecasaca, sem atentar nessas duas grandes forças, novas e triunfantes, às vezes reunidas numa só: o bacharel e o mulato.” O que de fato Freyre quis dizer, é que esse “bacharel” é o estereótipo da voz que exalta o trabalho do escravo, do proletariado negro, índio e principalmente mestiço na formação nacional. Essa ascensão do bacharel se fez, muitas vezes, pelo casamento com uma mulher rica ou de família poderosa, não que seja uma pessoa formada academicamente.


Crítica:


É no capitulo III, intitulado como “O pai e o filho” que o autor da obra Sobrados e Mucambos, ressalta a grande diferença hierárquica existente na época entre os adultos e as crianças. Nesta parte, Gilberto Freyre mostrou entre outras questões, a divergência entre o homem mais velho e o mais novo, evidenciando as duas fases do ser humano na sociedade patriarcal: o menino “anjo” e o menino “diabo”. O autor enfatiza 3 tópicos para tal comparação: a idealização das mortes de crianças e a possível explicação; o sadismo da relação pai e filho com os castigos aplicados e o domínio do filho sobre o pai; e os bons modos que eram cobrados das crianças.

Freyre tem uma perspectiva específica para o fato da educação jesuíta, que agravou na diminuição do “pater poder” em suas raízes mais poderosas, por instituições como o colégio educacional, o teatro e a igreja. Também é possível notar o patriarcalismo como o domínio rural da casa grande sob a figura que comandava os locais de produção de cana de açúcar no Brasil Colônia, o senhor do engenho, e sob o semi patriarcalismo, um período de transição em que ocorreu a caída do patriarcalismo com o desenvolvimento dos sobrados.

Sobre a ida dos meninos para Colégios Jesuítas, essa educação comandada pela igreja objetivava formar cristãos, mas com valores universais, para que as crianças se tornassem melhores que o pater famílias. Os jesuítas eram exageradamente rigorosos com a educação da língua e deram uma grande importância para o aprendizado da literatura, o que contribui para o humanismo e universalismo.

Com esse movimento, houve o questionamento do pater famílias. O conhecimento agregado ao corpo, tornou-se essencial para viver entre as novas instituições que se estabeleciam. Nesse momento, as crianças começaram a estudar fora do Brasil, e ao aprenderem novas culturas e adquirirem novos modos, colocavam “em cheque” o comportamento de vida dos patriarcas.

No capítulo, o autor relata que o filho é sempre mais importante, e aos 6 anos já possui autonomia sobre o corpo, abordando a “questão da infância” que só se torna especial com a burguesia no século XVIII.

Em geral, a especificação da nossa modernização de acordo com Sobrado e Mucambos, é notada em elementos como a precocidade em se tornar um adulto tão cedo, as relações sádicas do senhor do engenho com seus filhos – em que é possível notar a submissão da criança com a soberania do pai, caracterizando assim, as relações sadomasoquistas –, a idealização da criança que morre cedo com a explicação de que havia virado um anjo, e o prestígio social das negras que foram escolhidas a dedo pelo seu senhor para servi-lo.

 
 
 

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