Orfeu Negro - Marcel Camus
- Silvia Travesso

- Apr 29, 2019
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Produzido em 1959, o filme Orfeu Negro de Marcel Camus foi inspirado na peça teatral de Vinícius de Moraes, Orfeu da Conceição. A partir das junções que o escritor fez com uma lenda da mitologia grega chamada Orfeu e Eurídice, e a favela do Rio de Janeiro, o diretor francês Marcel Camus se inspirou e produziu esta obra. A mesma também é conhecida como Orfeu do Carnaval.
O longa rendeu para o Brasil dois prêmios importantes: o Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, e as Palmas de Ouro no Festival de Cannes. Uma obra que fez sucesso principalmente por sua originalidade, sendo o primeiro filme brasileiro a trazer o negro com uma imagem bem apresentada, sem associá-lo ao crime organizado ou tráfico de drogas.
Em Orfeu Negro, a obra se passa no carnaval do Rio de Janeiro, com a personagem Eurídice vindo do sertão nordestino para morar na favela carioca com sua prima Serafina. A jovem está fugindo de um rapaz mascarado que a persegue porque ela não quis namorá-lo. Durante o carnaval, Eurídice conhece o motorista e músico Orfeu, noivo de Mira. Os dois se apaixonam perdidamente um pelo outro, e então Mira com ciúmes, também começa a perseguir Eurídice em algumas cenas. Nesse meio tempo, Serafina ajuda a prima a namorar Orfeu e os dois passam os dias de folia juntos.
Em um desses dias, Eurídice revela o real motivo de estar no Rio de Janeiro e de quem está fugindo. Orfeu entende sua preocupação e diz que vai ficar tudo bem, mas no último dia de carnaval o homem que a persegue, aparece. Eurídice fica com medo e foge desesperada favela adentro. Mesmo a jovem tentando se esconder, o homem a encontra e começa a persegui-la. Em meio ao desespero, ela corre freneticamente e entra em um galpão velho e escuro. Assustada com o que poderá acontecer se o homem a alcançar, ela pula de um tablado e se segura em um fio de alta tensão.
Ao mesmo tempo, Orfeu chega no espaço e liga a voltagem. Nesse instante Eurídice cai e morre eletrocutada. Orfeu começa a brigar com o perseguidor e fica inconsciente, ao acordar se dá conta dos fatos e fica sem reação. Era quarta-feira de cinzas e a ambulância chega para levar o corpo de Eurídice.
Orfeu vai atrás da amada em uma sessão espírita e Eurídice aparece no corpo de uma senhora, feliz com o acontecido, ele desenterra seu corpo, sequestra e leva-o para a favela. Mira vê a cena e joga uma pedra na cabeça de Orfeu, ao ser atingido ele cai de um barranco com o corpo morto de Eurídice e morre também. O amor que uniu o casal, em pouco tempo, lutou até a morte de ambos para que fosse possível ficarem juntos.
Crítica:
Elogiado e premiado, Orfeu Negro abriu vários caminhos para expor a cultura periférica brasileira ao mundo. Ele foi o primeiro filme do país a trazer a pessoa negra com uma imagem digna e sem estereótipos pejorativos, tanto que foram selecionados 45 atores negros para a produção do longa. Diferente de uma parte dos filmes brasileiros, Orfeu Negro não apresenta nenhuma cena de sexo explícito ou atores nus, muito menos apologia à violência.
Se trata de uma obra leve que mescla um toque de comédia com drama e muito samba no pé. Aliás, o que mais se ouve durante uma hora e meia de filme, são pandeiros e batuques que não deixam nenhum personagem parado durante o carnaval, período festivo em que se passa a trama.
A trilha sonora é um marco da obra, composta por clássicos da bossa nova em que é possível ordenar em três grandes categorias de gêneros musicais: canções românticas, músicas de carnaval (marchinhas), e a música tradicional afro brasileira, que aparece na segunda parte do filme quando o personagem principal assiste à uma sessão espírita no terreiro de candomblé. Ao analisar a obra no contexto social, é possível identificar uma cultura brasileira demarcada com elementos significantes e característicos do Rio de Janeiro de 1959, que podem ser retratados em tópicos:
1) A paisagem tropical, com cenas gravadas ao ar livre, na praia e natureza selvagem com enfoque nas belezas da Baía de Guanabara.
2) O carnaval, que chamou a atenção de telespectadores internacionais, apresentado pela primeira vez na indústria cinematográfica como acontece essa gigante festa espontânea.
3) A mulher carioca com toda sua sensualidade, charme e autenticidade das personagens que fazem parte da obra.
4) E por fim, os rituais religiosos afro brasileiros que foram inseridos no filme em uma cena de um reencontro místico entre Orfeu e Eurídice, amantes do longa.
Dentro de Orfeu Negro, assuntos como racismo, violência ou tráfico de drogas, não ganham enfoque. Pelo contrário, é apresentada uma cultura negra raiz. Mas fora das telas, entre 1959 e 2008, o filme teve uma recepção ambígua no meio artístico internacional: ao mesmo tempo que dava um impulso importantíssimo à projeção da cultura brasileira no mundo, por outro lado foi sempre denunciado em nome da autenticidade da própria cultura brasileira.
Apesar de todas as críticas feitas em nome dessa autenticidade, Orfeu Negro construiu um documento de ordem para a história cultural do Brasil, mostrando ao mundo que todo carnaval tem seu fim, e que "A felicidade do pobre parece a grande ilusão do carnaval / a gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho / pra fazer a fantasia de rei ou de pirata ou jardineira / pra tudo se acabar na quarta-feira", trecho da música A Felicidade.

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