Cidade de Deus - Fernando Meirelles, Kátia Lund
- Silvia Travesso

- Apr 21, 2019
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Baseado no livro do autor Paulo Lins, Cidade de Deus é um filme lançado no Brasil em 2002, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund. Com grande impacto nacional, a obra se tornou um marco histórico no cinema brasileiro sendo indicada a quatro categorias no Oscar: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor edição.
O sucesso do filme não é baseado apenas em seus aspectos técnicos, visuais e estéticos, mas também na mensagem social que transmite. Em duas horas e quinze minutos, Cidade de Deus mostra um Brasil que nem todos conhecem ou não querem enxergar, e por isso mesmo, revolucionou o modo em que se relata a realidade da periferia carioca.
No longa, a vida difícil e perigosa, se une entre o crime organizado, violência policial e o aliciamento infantil no tráfico. O protagonista Buscapé, é um jovem que sonha em ser fotógrafo e leva o lema “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, que transmite claramente todo o temor vivenciado ali. Ao mesmo tempo que Buscapé tenta fugir da violência e ter uma vida mais tranquila, também narra histórias trágicas de vários habitantes da comunidade, contando a sua perspectiva desde os tempos da infância. Os garotos de sua idade, como Bené e Dadinho, posteriormente apelidado de Zé Pequeno, cresceram com os assaltantes da região e se tornaram donos de “bocas” de tráfico.
Com o desenrolar da trama, Bené é assassinado em um baile de favela, e Zé Pequeno perde o seu companheiro que ajudava a manter a paz entre os criminosos. Com isso, o grupo de Pequeno diminui e o traficante acaba recrutando crianças cada vez mais novas para ficar ao seu lado. Durante mais de um ano, os aliciados recebem armas e são arrastados para confrontos, morrendo pelas ruas da Cidade de Deus.
Nesse meio, Buscapé segue firme sobrevivendo entre o caos, trabalhando como entregador de jornais e sonhando com sua carreira de fotógrafo. Zé Pequeno utiliza as fotos de Buscapé que são publicadas em um jornal para mostrar como manda no tráfico da comunidade, e é nesse momento que o jovem encontra sua chance: se conseguir mais fotos do bandido, será contratado para trabalhar no jornal.
Ao final da trama, Buscapé fotografa Zé Pequeno pagando à polícia uma dívida de tráfico de armas, mas em seguida o bandido é morto pela sua própria gangue. Enquanto a história de violência se perpetua, Buscapé tem duas escolhas: expor o momento da corrupção da polícia ou vender a foto do bandido morto para o jornal. Acaba escolhendo a segunda opção e conquistando uma carreira na fotografia. Durante todo o filme, a única ambição de Buscapé era sair da Cidade de Deus, e assim o fez.
Nomeado pelo site americano Pop Crunch pós votação, a cena no vídeo abaixo foi eleita a mais violenta da história do cinema:
Crítica:
O filme Cidade de Deus retrata como o tráfico de drogas funciona nas favelas cariocas, explicando de uma forma até didática, que se trata de um comércio extremamente rentável para os indivíduos. Os garotos mais jovens são chamados de “aviãozinhos”, e recebem dinheiro para levar e trazer informações.
Cidade de Deus é, sem dúvidas, um filme didático e inesquecível. A narrativa esclarece a imagem de uma comunidade agressiva em que todos estão envolvidos no crime organizado e tráfico de drogas. Mas na realidade, ao analisar a obra, pode-se perceber que a sua essência procura denunciar vários problemas sociais: o racismo, a falta de opções e oportunidades, de recursos e a pobreza que uma parte da população brasileira enfrenta. Os produtores, Fernando Meirelles e Kátia Lund, explicam o passado dos criminosos e quais foram as suas motivações para tal fato, mostrando um ciclo de morte e violência que para quem vive ali, é quase impossível fugir.
O foco da mensagem está voltado para a vida das crianças, que muitas vezes não recebem educação escolar básica e não possuem familiares presentes no dia a dia. Nascem e crescem abandonados, com fome, sem perspectivas e convivendo diariamente com a violência que para elas, é normal. Os seus maiores ídolos são os bandidos que, por muitas vezes, acabam sendo sua assistência por serem os únicos que têm dinheiro. Dessa forma, o tráfico é encarado como uma possibilidade de carreira, um jeito de ganhar dinheiro para sobreviver na comunidade.
Os meninos são tratados como homens adultos com liberdade para escolher entre matar ou morrer por sua facção, assim como pequenos soldados que estão lutando por sua própria sobrevivência. Cidade de Deus, relata de uma forma extremamente sensível e comovente que como as crianças acabam vendo o tráfico como a única saída. Isso é justificado na última cena do filme, em que os garotos desejam fazer uma lista com os nomes de seus inimigos, mas não sabem escrever. Até mesmo o maior bandido da periferia, Zé Pequeno, começou como um menino pobre e solitário que sonhava em ter dinheiro e poder. E terminou sendo assassinado por integrantes da sua própria facção.
Cidade de Deus apontou escancaradamente todos os cúmplices dessa realidade das favelas: o descaso do governo, a corrupção da polícia, a falta de uma base instrucional ao e a curiosidade da mídia insensível. Fazendo desse fato, uma obra totalmente reflexiva para todos os telespectadores.

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